Há mudanças que chegam devagar. Uma decisão amadurece, uma ideia ganha forma, uma mudança de trabalho é planejada, uma mudança de país é organizada.
E há aquelas que simplesmente acontecem.
Um relacionamento termina. Um emprego deixa de existir. Uma doença aparece. Uma perda muda a rotina. Um projeto que parecia certo deixa de fazer sentido. Ou alguma circunstância inesperada obriga a pessoa a reorganizar uma vida que, até pouco tempo antes, parecia estável.
Nessas situações, uma pergunta costuma aparecer quase automaticamente:
?Como eu faço para voltar a ser como antes??
É uma pergunta compreensível. Afinal, quando alguma coisa conhecida deixa de existir, recuperar a antiga sensação de segurança parece, à primeira vista, o caminho mais óbvio.
Mas nem sempre é possível voltar. E, mesmo quando é possível recuperar parte do que existia antes, a experiência da mudança pode ter alterado a forma como aquela vida é vivida.
É aí que começa uma parte importante do processo de adaptação, a percepção de seguir em frente não significa necessariamente reconstruir o passado.

Depois de uma mudança significativa, é comum que a pessoa se concentre naquilo que perdeu.
Essas perguntas podem fazer parte do processo de compreender o que aconteceu.
O problema aparece quando a única possibilidade imaginada para o futuro é a recuperação exata da vida anterior.
Nesse caso, a pessoa pode permanecer presa a uma comparação constante entre o presente e aquilo que existia antes, como a antiga rotina, o antigo trabalho, o antigo relacionamento, o antigo corpo, a antiga cidade, a antiga versão de si mesma.
E quanto maior a distância percebida entre os dois momentos, maior pode ser a sensação de fracasso.
Mas existe uma diferença importante entre querer recuperar algo que foi perdido e acreditar que só será possível ficar bem se tudo voltar exatamente ao que era.
A segunda possibilidade pode tornar a adaptação ainda mais difícil.
A palavra ?aceitação? às vezes é mal compreendida.
Aceitação, em determinados modelos psicoterapêuticos, está mais relacionada à capacidade de reconhecer a realidade presente sem gastar toda a energia psíquica tentando eliminá-la ou controlá-la.
Essa distinção é particularmente importante na Terapia de Aceitação e Compromisso, conhecida como ACT, uma abordagem que tem como um de seus conceitos centrais a flexibilidade psicológica. Pesquisas recentes e revisões sistemáticas apontam para a relevância desse processo nos resultados terapêuticos da ACT.
Flexibilidade psicológica é a capacidade de permanecer em contato com o que está acontecendo, inclusive quando existe sofrimentoe, ainda assim, conseguir escolher comportamentos coerentes com aquilo que é importante.
Em outras palavras: É aprender a seguir mesmo quando determinadas experiências são difíceis.
Uma das armadilhas das grandes transições é imaginar que existem apenas duas possibilidades: voltar à vida anterior ou aceitar que tudo acabou.
Entre essas duas alternativas existe um espaço muito maior.
Uma pessoa pode mudar de país e continuar sendo a mesma pessoa em muitos aspectos, enquanto precisa reconstruir redes de apoio, hábitos e referências.
Pode mudar de carreira sem considerar os anos anteriores um desperdício.
Pode terminar uma relação e, depois de um período de luto, construir uma vida que não seja simplesmente uma versão da anterior sem aquela pessoa.
Pode enfrentar uma mudança na saúde e precisar reorganizar atividades, prioridades e expectativas sem que isso determine o valor da sua vida.
A adaptação incorpora a experiência nova à história que continua sendo construída.
Existe uma diferença entre lutar por aquilo que importa e lutar contra a realidade.
Às vezes, uma pessoa passa tanto tempo tentando recuperar uma versão anterior da própria vida que deixa pouco espaço para descobrir o que pode ser construído no presente.
Isso não acontece porque ela não é forte o suficiente. Na verdade, muitas vezes acontece justamente porque aquela vida anterior tinha muito valor.
É difícil abrir espaço para uma nova possibilidade quando ainda estamos tentando recuperar exatamente aquilo que perdemos.
Por isso, algumas mudanças exigem não apenas adaptação prática, mas também uma espécie de reorganização interna.
É preciso descobrir:
O que continua sendo importante para mim?
O que mudou?
O que já não faz sentido manter?
O que eu ainda quero construir?
Essas perguntas não produzem respostas imediatas. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis do processo: aceitar que nem toda transição precisa ser resolvida rapidamente.
A psicoterapia não tem como objetivo acelerar artificialmente um processo que precisa de tempo.
Em situações de transição, o trabalho terapêutico pode ajudar a pessoa a compreender o que está vivendo, reconhecer perdas, identificar padrões que dificultam a adaptação e ampliar a capacidade de fazer escolhas diante de uma realidade que mudou.
Na perspectiva da flexibilidade psicológica, isso envolve aprender a lidar de maneira diferente com pensamentos e emoções difíceis, manter contato com o presente e continuar se movimentando em direção ao que tem valor. Revisões e meta-análises recentes encontram evidências de que intervenções baseadas em ACT podem aumentar a flexibilidade psicológica e reduzir a inflexibilidade, embora os efeitos variem conforme a população e o contexto clínico.
Talvez a pergunta seja outra?
Nem toda mudança precisa ser transformada imediatamente em aprendizado.
Nem toda perda precisa ganhar um significado.
Nem toda dificuldade precisa ser romantizada.
Há situações que simplesmente doem.
Mas, depois que o impacto inicial passa, pode existir uma pergunta diferente daquela que fazemos no começo:
Em vez de perguntar apenas ?Como eu faço para voltar ao que era??, talvez seja possível perguntar:?Como eu sigo a partir daqui??
A diferença parece pequena, mas ela muda o ponto de partida.
Porque a primeira pergunta olha constantemente para trás, tentando recuperar uma realidade que pode já não existir.
A segunda olha para o presente, reconhecendo que, mesmo depois de uma mudança, ainda pode haver escolhas, possibilidades e caminhos que não estavam visíveis antes.
Já pensou na possibilidade de aprender a construir uma vida possível a partir da vida que existe agora?
_____________________________________________________________________
Hsu, T., Adamowicz, J. L., & Thomas, E. B. K. (2023). The effect of acceptance and commitment therapy on the psychological flexibility and inflexibility of undergraduate students: A systematic review and three-level meta-analysis. Journal of Contextual Behavioral Science, 30, 169?180.
Levin, M. E., et al. (2024). An Overview of Research on Acceptance and Commitment Therapy. Psychiatric Clinics of North America.
Macri, J. A., & Rogge, R. D. (2024). Examining domains of psychological flexibility and inflexibility as treatment mechanisms in Acceptance and Commitment Therapy: A comprehensive systematic and meta-analytic review. Clinical Psychology Review, 110, 102432.
Zou, Y., Wang, R., Xiong, X., Bian, C., Xiong, X., & Zhang, Y. (2025). Effects of acceptance and commitment therapy on negative emotions, automatic thoughts and psychological flexibility for depression and its acceptability: A meta-analysis. BMC Psychiatry, 25, 602.
Sente que precisa de apoio para lidar com esta situação? Não precisa de passar por isso a sós. Clique no botão abaixo e agende uma consulta de psicoterapia online ou presencial.