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Uma pessoa recebe uma tarefa adicional no trabalho, embora já esteja sobrecarregada, e responde imediatamente que sim. Um familiar pede um favor num momento pouco conveniente e a resposta volta a ser positiva. Um amigo faz um convite que não desperta qualquer vontade, mas a recusa parece difícil demais.


Nenhuma dessas situações, isoladamente, indica um problema psicológico. A questão começa quando dizer ?sim? deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como uma resposta automática ao medo de desagradar, à culpa ou à necessidade de aprovação.


A dificuldade em dizer não é frequentemente apresentada como falta de limites. A psicologia permite, no entanto, olhar para o fenómeno de forma mais complexa: o que acontece entre o pedido que é feito e a resposta que é dada?


Na perspetiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), a interpretação de uma situação influencia as respostas emocionais e comportamentais. Diante de um pedido, por exemplo, uma pessoa pode pensar que uma recusa será interpretada como egoísmo, falta de consideração ou incompetência. Esses pensamentos podem desencadear ansiedade ou culpa e aumentar a probabilidade de aceitar o pedido, mesmo quando não existe disponibilidade ou vontade para fazê-lo.


O comportamento pode produzir um alívio imediato. Ao dizer sim, a pessoa evita naquele momento a possibilidade de conflito ou desaprovação. Esse alívio, por sua vez, pode contribuir para que o mesmo padrão seja repetido em situações futuras. É uma dinâmica particularmente relevante para a TCC, que procura compreender a relação entre pensamentos, emoções, comportamentos e as consequências que ajudam a manter determinados padrões.


A investigação sobre assertividade sustenta a importância clínica desse tema. Numa revisão publicada na Clinical Psychology: Science and Practice, Speed, Goldstein e Goldfried (2018) analisaram a literatura disponível sobre treino de assertividade e concluíram que a assertividade está relacionada com diferentes problemas clínicos e contextos, podendo constituir uma competência relevante para dificuldades psicológicas distintas.


Isso não significa que todas as pessoas que têm dificuldade em dizer não apresentem um problema de saúde mental. Significa que a assertividade pode ser uma competência psicológica relevante quando determinados padrões de comportamento provocam sofrimento ou interferem no funcionamento interpessoal.


A assertividade também não deve ser confundida com agressividade. Ser assertivo implica conseguir expressar opiniões, necessidades e limites de forma clara, respeitando simultaneamente os direitos da outra pessoa. Por isso, dizer não de maneira assertiva significa reconhecer que as necessidades de uma pessoa não anula automaticamente as da outra.


A evidência disponível sugere ainda que essa competência pode ser desenvolvida. Num ensaio clínico randomizado publicado em 2023, Hagberg e colaboradores avaliaram uma intervenção cognitivo-comportamental de oito semanas especificamente direcionada para o comportamento assertivo. O estudo incluiu 210 participantes e encontrou melhorias na assertividade relativamente ao grupo de controlo, com efeitos que se mantiveram no acompanhamento de um ano. Os autores também observaram resultados secundários relacionados com ansiedade, depressão e bem-estar, embora esses resultados devam ser interpretados no contexto específico do estudo e não como evidência de que o treino de assertividade, isoladamente, trate esses problemas.


Outro ponto importante é que a assertividade não depende apenas de saber formular uma resposta. Muitas vezes, a dificuldade está em tolerar aquilo que pode acontecer depois dela.


Uma pessoa pode saber perfeitamente dizer ?não? e, ainda assim, sentir culpa quando o faz. Pode recear que o outro fique magoado, frustrado ou zangado. Pode interpretar essa reação como prova de que tomou uma decisão errada.


Mas uma emoção não é, por si só, uma confirmação de que uma decisão foi inadequada.


Sentir culpa depois de estabelecer um limite não significa necessariamente que esse limite seja injusto. Da mesma forma, o facto de alguém ficar frustrado com uma resposta não significa automaticamente que a resposta tenha sido desrespeitosa.


Essa distinção é importante porque colocar limites envolve também tolerar algum grau de desconforto. O objetivo psicológico pode ser aprender a tomar decisões apesar dessas emoções, avaliando se a resposta é coerente com a realidade, com as próprias possibilidades e com aquilo que é importante naquela situação.


Na prática clínica, isso pode envolver identificar pensamentos automáticos, avaliar as previsões sobre a reação dos outros e testar essas previsões através de mudanças graduais de comportamento. Em vez de assumir que ?se eu disser não, a pessoa vai deixar de gostar de mim? é um facto, a hipótese pode ser observada e confrontada com aquilo que realmente acontece.


É também importante não transformar o conceito de limites numa obrigação de recusar pedidos. Dizer sim pode ser perfeitamente saudável quando corresponde a uma escolha. Ajudar alguém, fazer uma concessão ou aceitar uma responsabilidade adicional pode fazer sentido em determinadas circunstâncias.


A diferença está na possibilidade de escolha.


Um sim dado porque se quer ajudar é diferente de um sim dado porque parece impossível dizer não.


Uma revisão sistemática sobre intervenções de comunicação assertiva encontrou evidências de que programas de treino podem melhorar a assertividade em diferentes grupos, embora os autores também tenham destacado a necessidade de mais investigação sobre a manutenção desses efeitos e sobre os seus resultados comportamentais a longo prazo.


Por isso, saber dizer não não deveria ser entendido como uma regra de comportamento ou como mais uma obrigação de autocuidado.


Em algumas situações, a resposta mais adequada será sim. Noutras, será não. E haverá situações em que a resposta precisará de ser negociada.


A questão central talvez seja: você se sente livre para dizer não quando realmente precisa?

Porque um limite saudável é permitir que uma decisão seja tomada de forma consciente, sem que o medo da reação do outro seja o único responsável pela resposta.


Referências bibliográficas

Hagberg, T., Manhem, P., Oscarsson, M., Michel, F., Andersson, G., & Carlbring, P. (2023). Efficacy of transdiagnostic cognitive-behavioral therapy for assertiveness: A randomized controlled trial. Internet Interventions, 32, 100629. https://doi.org/10.1016/j.invent.2023.100629

Omura, M., Maguire, J., Levett-Jones, T., & Stone, T. E. (2017). The effectiveness of assertiveness communication training programs for healthcare professionals and students: A systematic review. International Journal of Nursing Studies, 76, 120?128. https://doi.org/10.1016/j.ijnurstu.2017.09.001

Speed, B. C., Goldstein, B. L., & Goldfried, M. R. (2018). Assertiveness training: A forgotten evidence-based treatment. Clinical Psychology: Science and Practice, 25(1), e12216. https://doi.org/10.1111/cpsp.12216