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Há momentos em que o sofrimento começa a mudar a forma como nos enxergamos. Uma perda, uma experiência de rejeição, um período de ansiedade ou uma fase de depressão podem influenciar a maneira como interpretamos o que acontece conosco. Aos poucos, aquilo que estamos vivendo pode começar a ocupar espaço demais na forma como nos definimos.


Uma pessoa que sempre se considerou competente pode começar a duvidar da própria capacidade depois de uma sequência de dificuldades. Alguém que passou por uma relação dolorosa pode desenvolver uma visão negativa de si. Quando a tristeza persiste, pode ficar mais difícil imaginar que a vida volte a ter outras possibilidades.


Em algumas situações, a mudança aparece na maneira de falar consigo mesmo. Em vez de reconhecer que está passando por um período difícil, a pessoa começa a concluir que há algo de errado com ela. ?Eu sou um fracasso.? ?Eu estrago tudo.? ?Eu nunca vou conseguir.?


Essas frases podem parecer descrições fiéis da realidade, principalmente quando o sofrimento já dura algum tempo. Mas vale a pena olhar com cuidado para a maneira como uma experiência dolorosa se transforma numa conclusão sobre quem somos.


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Quando uma dificuldade se transforma numa definição de si


A imagem que construímos de nós mesmos é influenciada pelas experiências que vivemos e pelo significado que atribuímos a elas. Ao longo da vida, desenvolvemos crenças sobre nossas capacidades e a maneira como nos relacionamos com outras pessoas.


Na psicologia cognitiva, essas crenças são importantes para compreender como interpretamos as situações. Elas influenciam aquilo a que prestamos atenção, as conclusões que tiramos dos acontecimentos e as expectativas que criamos em relação ao futuro.


Imagine alguém que comete um erro no trabalho e conclui que não é competente. A partir dessa interpretação, pode começar a prestar mais atenção às próprias falhas, desconsiderar resultados positivos e sentir insegurança diante de novas tarefas. Se essa pessoa passar a evitar situações em que possa ser avaliada, terá menos oportunidades de perceber que também consegue aprender, resolver problemas e lidar com desafios.


Assim, uma experiência pontual pode ganhar um significado cada vez mais amplo. O erro deixa de ser apenas algo que aconteceu e passa a funcionar como uma espécie de prova de que aquela pessoa não é capaz.


Esse processo se aproxima do que os modelos cognitivos descrevem ao estudar a relação entre crenças, interpretação das experiências e sofrimento emocional. Pesquisas sobre depressão, por exemplo, investigam como os esquemas negativos sobre si mesmo podem estar associados à vulnerabilidade ao sofrimento e como essas estruturas cognitivas podem mudar ao longo do tratamento (Beck et al., 1979; Dozois et al., 2009; Dozois & Rnic, 2015).


O sofrimento pode mudar a forma como olhamos para a nossa história


Quando estamos emocionalmente fragilizados, algumas lembranças podem ganhar mais destaque do que outras. Os momentos em que falhamos podem parecer mais importantes do que as situações em que conseguimos lidar com as dificuldades. As experiências de rejeição podem tornar-se mais presentes do que as relações em que fomos acolhidos.

Com o tempo, essa seleção de experiências pode contribuir para uma narrativa muito rígida sobre nós mesmos. A pessoa começa a olhar para o passado procurando sinais de que sempre foi assim e passa a interpretar o futuro a partir da mesma conclusão.

Quem acredita que nunca consegue fazer nada direito pode antecipar o fracasso antes de começar. Quem teme ser rejeitado pode evitar se aproximar de outras pessoas. Essas expectativas podem influenciar os comportamentos e, em determinadas circunstâncias, contribuir para manter o ciclo de sofrimento. Evitar uma situação, por exemplo, pode trazer alívio imediato, mas também impedir que a pessoa descubra como conseguiria lidar com ela.

É importante reconhecer que esse processo não acontece de maneira isolada. As condições de vida, as experiências traumáticas, as relações, a saúde física e o contexto social também influenciam a saúde mental. Uma situação difícil pode continuar sendo difícil, mesmo quando a pessoa consegue rever a maneira como pensa sobre ela.

Por isso, compreender a própria experiência exige olhar para o que aconteceu, para as condições em que aconteceu e para o significado que tudo isso adquiriu ao longo do tempo.


Como separar aquilo que você está vivendo daquilo que acredita ser


Uma primeira possibilidade é prestar atenção à linguagem que usamos para descrever a nós mesmos.

Existe uma diferença entre dizer ?estou com dificuldade para lidar com essa situação? e concluir ?sou incapaz de lidar com qualquer situação?. A primeira frase reconhece uma dificuldade concreta. A segunda transforma essa dificuldade numa característica geral e aparentemente permanente.


Essa distinção não resolve o sofrimento por si só, mas pode ajudar a examinar conclusões que se tornaram automáticas.


Quando um pensamento negativo sobre si aparecer, algumas perguntas podem ajudar a compreendê-lo melhor: quais experiências contribuíram para que eu chegasse a essa conclusão? Estou considerando diferentes aspectos da situação? Essa ideia descreve o que está acontecendo agora ou se tornou uma explicação para tudo o que acontece comigo?


O objetivo é investigar se a conclusão que tiramos dessas experiências é proporcional ao que aconteceu.


Uma pessoa pode ter cometido um erro sem que isso determine toda a sua competência. Pode ter vivido uma relação em que foi magoada sem que essa experiência defina o seu valor. Pode estar enfrentando dificuldades para realizar determinadas atividades e precisar de apoio, tempo ou adaptação para encontrar outras formas de lidar com elas.


Na terapia, esse trabalho pode envolver a identificação de pensamentos recorrentes, o exame das crenças que os sustentam e a observação dos comportamentos associados a eles. Também pode incluir experiências graduais que permitam testar expectativas e desenvolver novas aprendizagens.


A investigação de Dozois e colaboradores (2009), por exemplo, encontrou diferenças na organização cognitiva de pacientes que receberam terapia cognitiva associada à medicação em comparação com aqueles que receberam apenas medicação, embora ambos os grupos tenham apresentado reduções nos sintomas depressivos. O resultado contribui para o estudo dos processos de mudança cognitiva, mas não permite concluir que uma única técnica ou explicação seja suficiente para todas as pessoas.


Você pode reconhecer o que viveu sem transformar isso em tudo o que é


Quando uma experiência dolorosa se prolonga, é compreensível que ela passe a influenciar a forma como nos vemos e não é necessário ignorar essas mudanças para começar a olhar para si de outra maneira. Algumas experiências deixam marcas reais. Certas capacidades podem precisar de ser reconstruídas, algumas relações podem terminar e determinados planos podem deixar de fazer sentido. Reconhecer tudo isso faz parte de compreender a própria história.


O cuidado está em não transformar uma dificuldade numa sentença definitiva sobre a própria identidade.


Você continua tendo uma história que começou muito antes do momento atual. Existem experiências que ajudaram a formar quem você é, relações que tiveram importância, interesses, valores e capacidades que podem estar presentes mesmo quando o sofrimento dificulta reconhecê-los. Algumas dessas dimensões podem mudar ao longo da vida, e outras podem ser redescobertas com o tempo.


O artigo de Chris R. Brewin (2023), ao discutir a identidade na psicoterapia cognitivo-comportamental, chama a atenção para a importância de considerar tanto as representações que construímos sobre nós mesmos quanto a maneira como vivenciamos a própria experiência. Essa distinção ajuda a lembrar que a identidade envolve diferentes dimensões e não pode ser compreendida apenas por aquilo que uma pessoa pensa sobre si.


Talvez, em determinados momentos, seja difícil acreditar que existe algo além da dor que você sente. Não é preciso forçar essa percepção nem exigir de si uma mudança imediata. Pode ser necessário tempo e acompanhamento profissional para compreender o que aconteceu e encontrar formas de viver com aquilo que mudou.


A psicoterapia pode ajudar a identificar padrões de pensamento e comportamento, compreender como determinadas crenças se desenvolveram e avaliar de que maneira continuam influenciando a vida atual. Esse processo é individual e depende das necessidades, da história e das condições de cada pessoa.


A sua dor merece ser levada a sério. Ela pode dizer muito sobre o que você viveu e sobre aquilo de que precisa neste momento. Mas as conclusões que você tira de si enquanto sofre também podem ser examinadas, compreendidas e, quando necessário, revistas.


A forma como você se enxerga pode mudar ao longo da vida. E o momento difícil que está atravessando agora não precisa definir, sozinho, tudo aquilo que você acredita ser.


Se sente que este tema faz parte do que está a viver, pode conhecer melhor o meu trabalho e entrar em contacto comigo aqui em contactos. Será um prazer esclarecer as suas dúvidas sobre o acompanhamento psicológico.


Referências bibliográficas


Beck, A. T., Rush, A. J., Shaw, B. F., & Emery, G. (1979). Cognitive Therapy of Depression. Guilford Press.


Obra clássica que apresenta os fundamentos do modelo cognitivo da depressão e a relação entre interpretações, crenças e sofrimento emocional.


Dozois, D. J. A., Bieling, P. J., Patelis-Siotis, I., Hoar, L., Chudzik, S., McCabe, K., & Westra, H. A.


(2009). Changes in self-schema structure in cognitive therapy for major depressive disorder: A randomized clinical trial. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 77(6), 1078?1088. https://doi.org/10.1037/a0016886


Estudo clínico que investigou mudanças na estrutura dos esquemas sobre si mesmo durante o tratamento da depressão.


Dozois, D. J. A., & Rnic, K. (2015). Core beliefs and self-schematic structure in depression. Current Opinion in Psychology, 4, 98?103. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2014.12.008


Revisão da investigação sobre crenças centrais e esquemas relacionados à imagem de si mesmo na depressão, incluindo a sua relação com vulnerabilidade psicológica e possibilidade de mudança.


Brewin, C. R. (2023). Identity: A critical but neglected construct in cognitive-behaviour therapy. Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry, 78, 101808. https://doi.org/10.1016/j.jbtep.2022.101808